Sinto-me farta até do que não vi.
Cansada das pessoas que não conheço.
O que pode fazer-me querer levantar-me todos os dias?
Nem desafios, nem o entusiasmo de os criar.
Nenhum prazer nem a esperança de o ter.
Apenas a obrigação de ter que seguir em frente,
Sem pensar,
Quando o que queria era ficar parada,
à espera dos créditos finais,
para não ter que sair no intervalo.
Bem-vindo ao nunca.
Onde nada acontece
e tudo poderia ter acontecido.
Às vezes,
cá dentro,
sinto-me assim.
Acordo. E levanto-me para ir deitar-me.
Estou cansada. Entorpecida.
Acordo, mas é da vida.
Dormia
enquanto fingia que vivia.
E agora quero viver
para dormir.
São horas, dizes.
Mas eu não ouço, pois procuro outras horas.
Aquelas em que encontrar-te
não dependia do sonho
que tivesse ao acordar.
Boa noite.
Vou-me deitar.
Há sítios onde fomos aos quais não queremos voltar.
Há outros que, tão perto, não conhecemos.
Ainda que longe, talvez voltar para casa seja sempre o único caminho.
Pensava eu que esperava,
mas afinal o tempo
é só uma sucessão
inevitável de passados.
O que esperava já passou.
Inevitavelmente.
A vontade de levantar-me de manhã é cada vez menor. Não chegaria sequer a chamar-lhe vontade, porque é mais um sentido de responsabilidade que me obriga a acordar e sair da cama a horas que considero indecentes.
O mais estranho é que ultimamente até nos dias de suposto descanso perco essa vontade que deveria ser natural, pelo menos depois de dormir mais umas horas do que o habitual. Mas acho que este cansaço não é só físico. É um cansaço que vem de dentro.
Não sei como resolver o problema, porque infelizmente sei que é daqueles que pioram com o tempo. Inventar novos pretextos para a vontade? Instigar o sentido de responsabilidade? Ou simplesmente esperar que passe? (a vida?) Para alguém que não se ilude facilmente e que não consegue mentir a si própria é difícil encontrar novas motivações num mundo que me parece cada vez mais igual…
Às vezes páro, com calma, e não encontro.
Outras vezes, a maior parte delas, procuro com fúria e só encontro o que me vem parar às mãos. Talvez o resto não esteja simplesmente destinado a ser meu e o erro não resida nos planos falhados.
Às vezes quero ser outra.
Outras vezes sou apenas eu e talvez aí me engane menos. Pelo menos as verdades são maiores. Ou simplesmente mais sentidas.
Mas a verdade não se sente. Existe. Ou existe simplesmente tal e qual a sentimos?
Mentimos tanto a nós próprios que parece perfeitamente desculpável que consigamos fazê-lo repetidamente com os outros. Afinal, o maior mal é não termos consciência disso e exigirmos constantemente aos outros aquilo que não conseguimos admitir que não somos capazes de fazer.
E embora sonhe com algo mais, o medo parece interpor-se entre a vontade de avançar e os olhos fechados.
Às vezes pergunto-me como é que entre tantos caminhos à disposição só se consegue ver um beco sem saída.
Exigimos demasiado. A nós. Aos outros.
Perdemos muito tempo. Tempo inútil para tarefas inúteis.
Ás vezes é preferível ficarmos sós. Sobretudo se estivermos entre gente.
Dizer adeus e voltar noutro dia.
Ou não voltar e ficar cá.